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Médicos Jovens
Qua, 11 de Outubro de 2017 15:32

Fernando Uberti Machado* e Francisco Pavão**


Entre os dias 23 e 24 de agosto de 2017 realizou-se em Belém do Pará o II Fórum Nacional de Integração do Médico Jovem. O evento, organizado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), contou com palestras e debates envolvendo os grandes temas da Medicina atual, especialmente aqueles mais demandados pelos médicos jovens: cuidados paliativos, vínculos e relações de trabalho, gestão de carreira, tecnologia e inovação em saúde, sistemas de saúde, modelo de formação médica, residência médica e tantos outros.

Centenas de jovens médicos e estudantes de Medicina estiveram presentes nos dois dias do evento, que contou também com transmissão on-line simultânea. Ao final, divulgou-se a chamada “Carta de Belém”, um compilado de proposições derivadas do Fórum a serem trabalhadas junto à sociedade e às autoridades competentes.

O II Fórum consolida o processo de crescimento da participação de médicos jovens dentro das entidades médicas brasileiras, que pode ser simbolizado pela criação da Comissão de Integração do Médico Jovem por parte do CFM: uma entidade desenvolvida para ser elo entre o Conselho e esses profissionais mais jovens, além de uma instância para discussão, coleta de demandas e encaminhamento de ações para esse público que já compõe cerca de 40% dos médicos brasileiros.

Nesse sentido, é importante enaltecer o papel do Conselho dos Jovens Médicos da Comunidade Médica de Língua Portuguesa (CMLP), que tivemos a honra de representar juntamente com os colegas Nívio Moreira e Naiara Balderramas.

Foi discutida a atuação e importância da CMLP e do Conselho dos Jovens Médicos nesse processo de integração, para que se alcancem avanços significativos para a Medicina e a Saúde, inclusive com o encaminhamento de eventos e ações conjuntas. Saímos de Belém mais fortes do que chegamos, mais unidos e com a certeza de que a voz dos médicos jovens está no centro da agenda de nossas entidades representativas, no Brasil, em Portugal, e em todos os demais países que comungam da lusofonia e Medicina.

Muitas mudanças nascem necessariamente de rupturas devido às circunstâncias de cada tempo; porém, as mudanças graduais e sustentadas, avalizadas pelo consenso, são as mais perenes. É esse tipo de mudança a que estamos assistindo, na senda da construção de uma Saúde Lusófona.

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* Fernando Uberti Machado é residente em Psiquiatria, no Brasil.

 

 

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 ** Francisco Pavão é residente em Saúde Pública, Portugal.

     

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

 * Os textos para esta seção devem ser enviados para o e-mail Este endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. , acompanhados de uma foto em pose formal, breve currículo do autor com seus dados de contato. Os artigos devem conter de 3000 a 5000 caracteres com espaço e título com, no máximo, 60.

 

 
A bioética e a esperança
Sex, 06 de Outubro de 2017 14:10

Carlos Vital Tavares Corrêa Lima


A ética das virtudes, ao longo da evolução histórica e filosófica da humanidade, recebeu diversas e importantes contribuições, como a do pastor alemão Fritz Jahr que, em 1927, construiu um pensamento com características imperativas: "respeite todos os seres vivos como um fim em si mesmo e trate-os como tal, se possível".

Em 1970, o bioquímico norte-americano Van Rensselaer Potter utilizou o neologismo "bioética" pela primeira vez. Decorridos 47 anos, a bioética se apresenta, na atualidade, como a fronteira de um novo pensamento científico. Esse maior status epistemológico vem de sua transversalidade por temas específicos e limites entre os extremos, como nascer/não nascer (aborto), morrer/não morrer (eutanásia), saúde/ doença (ética biomédica) e bem-estar/mal-estar (ética biopsicológica).

Nos tempos contemporâneos, a bioética se insere em diferentes perspectivas de análise, nos campos de dilemas provocados pelo avanço do conhecimento e pelas mudanças ocorridas nas relações sociais de um novo mundo, de extrema racionalidade, técnico e científico.

São exemplos a clonagem (ética genética), os confrontos entre jovens e velhos (ética de gerações) e as agressões ao meio ambiente (ecoética).

A bioética passou a tratar das relações humanas, da prevenção e solução de conflitos, da atenção à saúde e à vida, com ênfase à dignidade do ser humano e à sua autonomia, em um contexto de convivência das liberdades.

No âmbito da medicina, a bioética clínica – uma das áreas de aplicação desse método científico – proporciona, hoje, a oportunidade de reflexão e avaliação do melhor percurso profissional, na busca do resgate de um caráter humanista e humanitário, do crédito e respeito entre o médico e o paciente, submersos em um caldo de insumos materialistas.

Bernard Lown, um dos mais destacados cardiologistas do século XX, com base em sua experiência de ensino e assistência profissional, observou que o conceito do médico como conhecedor do homem passou ao do médico como conhecedor de uma técnica operativa sobre um órgão ou uma patologia.

De fato, a prática médica se tornou uma atividade onde o volume dos conhecimentos e a pluralidade das técnicas impuseram, com maior vigor, a exigência da especialização. Sem dúvida, a ânsia pelo saber radical pôs em risco uma acurada visão de conjunto do organismo humano e o sentido do próprio saber. Professor emérito de Harvard, em seu livro A arte perdida de curar, Lown chama a atenção para o foco desproporcional das escolas médicas no tecnicismo em detrimento da arte de ser médico. Para ele, a verdadeira "sabedoria médica" é adquirida pela capacidade de compreender um problema clínico a partir da integralidade do indivíduo.

Na procura desse elo perdido, no mister de cuidar do ser humano, de um ser em constante renovação nas relações consigo mesmo e com o meio que o cerca, de um ser em permanente vir a ser, o Conselho Federal de Medicina (CFM), com as suas normas e particularmente com o Código de Ética Médica, tenta estimular uma prática orientada por princípios fundamentais que preservem a medicina como profissão a serviço da saúde do indivíduo, da coletividade e exercida sem discriminação de nenhuma natureza.

O compartilhamento de esforços do CFM com a Sociedade Brasileira de Bioética (SBB) nas realizações, em setembro de 2015 e de 2017, respectivamente, do XI e XII Congressos Brasileiros de Bioética, bem como dos III e IV Congressos Brasileiros de Bioética Clinica, é relevante ao futuro, que precisa ser planejado e construído para ser justo.

Eventos dessa envergadura são oportunidades para o fortalecimento dos compromissos hipocráticos, em um paradigma benigno-humanitário.

Temas como justiça sanitária, mistanásia, desigualdades sociais, doenças raras e negligenciadas, entre outros trabalhos produzidos por alguns dos mais renomados bioeticistas nacionais e internacionais, foram apresentados com maturidade, sapiência e humildade, indispensáveis às melhores reflexões.

Por fim, renovaram-se as esperanças de autonomia, justiça, beneficência e equidade, princípios de base nos quais a bioética fixa residência como patrimônio universal e público da humanidade. 


Palavra do Presidente publicada na edição nº 270 do Jornal Medicina. Acesse aqui a publicação.

 
Carta aberta ao ministro da Saúde
Sex, 29 de Setembro de 2017 12:07

Isac Jorge Filho*

 

Senhor Ministro,

O senhor não poderia conseguir meio mais eficaz para se colocar como inimigo da maioria dos médicos brasileiros do que com sua falácia quanto a “médicos que fingem trabalhar”. Apenas escaparão como seus aliados aqueles que sua mensagem atingiu, ou seja, os médicos que fingem que trabalham. Mas, o senhor vai se decepcionar, eles são pouquíssimos. O MÉDICO BRASILEIRO TRABALHA MUITO!

É pena que o senhor chegue a ocupar o Ministério da Saúde e não conheça como trabalham os médicos de seu país: sem material adequado, agredidos em hospitais e unidades de saúde, assaltados nas unidades mais periféricas, mortos em acidentes, ao sair cansados de plantões, contaminados no seu trabalho por falta de equipamentos de proteção. A lista é muito mais longa, mas ficaremos por aqui.

Como o senhor deve saber, de um modo geral, os médicos brasileiros dirigem-se para assistência, pesquisa ou docência.

Sua equipe certamente tem amplo acesso à mídia e deve saber que estão cada vez piores as condições para trabalho em pesquisa e docência em nosso país. Muitos dos nossos melhores profissionais estão saindo do Brasil em busca de condições dignas de trabalho, muitas vezes para terminar pesquisas começadas aqui e interrompidas, não por “fingir que trabalha”, mas por falta de matéria-prima, insumos, equipamentos e recursos humanos auxiliares. Esses colegas carregam para o exterior todo o aprendizado de anos e anos, bancados com os recursos saídos, direta ou indiretamente, de recursos vindos dos bolsos dos brasileiros. Se pudessem, não fariam essa opção. Carregam também a sensação amarga de não conseguir realizar sonhos que envolviam a vida e o futuro em seu país. Sentem, no fundo da alma, a enorme decepção de saber que as autoridades pouco ou nada fizeram para impedir seu exílio – voluntário, mas forçado pelas condições precárias que nossos governos legaram ao Brasil. Sabem, como todos nós, que seu governo dirá que a culpa é do governo anterior, assim como o governo anterior alegava que os culpados estavam nos governos dos antecessores. Já estamos fartos desse joguinho político e cansados de assistir ao mesmo filme de terror, agora acrescido de sua declaração que atinge toda a classe médica brasileira e mostra sua enorme insensibilidade e desconhecimento dos reais problemas que afligem a saúde do Brasil.

Como o senhor deveria saber, a situação na área da assistência à saúde pública é ainda pior. Falta de tudo, e não estamos falando de coisas complexas ou altamente tecnológicas. Desde fios e compressas até medicamentos do dia a dia. Hospitais, unidades de saúde e mesmo faculdades insistem em tentar conseguir condições mínimas para que os profissionais possam exercer adequadamente seu trabalho. E o senhor diz que os médicos fingem que trabalham? Nós perguntamos se o senhor trabalha para resolver nossos problemas de saúde ou finge que trabalha, fazendo declarações de alcance nacional como essa? Sabemos que o senhor não é da área da saúde e não sente pessoalmente as enormes necessidades deste país doente. É mais fácil, como tem feito a maioria de seus antecessores, colocar a culpa nos médicos, certamente o elo mais frágil na corrente que deve manter um bom sistema de saúde. Primeiro vocês argumentaram que faltavam médicos e aumentaram o número de vagas nas faculdades e de novas faculdades. Trouxeram médicos do exterior sem passar por exames de qualificação (todos seriam médicos realmente?). Como não deu certo e não querem confessar que o problema não está no trabalho médico, mas na ineficácia de um sistema desequilibrado, querem agora dizer que o problema não é mais o número de médicos, mas o pretenso fato de que os médicos fingem que trabalham. São argumentos pouco mais que infantis, mas seria necessário que a população percebesse esse jogo para que ele fosse desfeito. Mas, infelizmente, as mídias de acesso colocadas à disposição das pessoas estão em sua grande maioria comprometidas com as condutas governamentais ou de grandes empresas. Ainda assim, vamos continuar insistindo com a verdade, e a verdade é que A GRANDE MAIORIA DOS MÉDICOS BRASILEIROS TRABALHA MUITO, EM MÁS CONDIÇÕES PARA O EXERCÍCIO PROFISSIONAL E NÃO PODE ARCAR COM ESSA ARMAÇÃO – QUE NÃO É NOVA – DE QUERER ENGANAR A POPULAÇÃO COLOCANDO NAS COSTAS DOS MÉDICOS UMA RESPONSABILIDADE QUE NÃO É NOSSA, MAS DE UM SISTEMA BEM PLANEJADO, MAS GERENCIADO POR PESSOAS INCAPAZES DE ENTENDER QUE O BRASIL É UM PAÍS DE MUITAS DOENÇAS, E A PRINCIPAL DELAS É A INSENSIBILIDADE POLÍTICA QUE POR TANTOS ANOS AQUELES QUE ESCOLHEMOS NAS URNAS CUIDAM DE MANTER.

 

Cordialmente,

Prof. Dr. Isac Jorge Filho
MÉDICO

 

 

* Isac Jorge Filho é professor titular de Bioética da Universidade de Ribeirão Preto (SP) e chefe do Serviço de Gastroenterologia e Nutrição da Santa Casa do município paulista, ex-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) e ex-conselheiro suplente do CFM.

 

professor da Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP) e ex-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp).

 
A campanha do Setembro Amarelo de prevenção ao suicídio
Sex, 29 de Setembro de 2017 12:07

Rosylane Nascimento das Mercês Rocha

 

Estarrecido o mundo acordou no dia 27 de março de 2015 com a notícia de que o copiloto Andreas Lubitz teria jogado o Airbus 320 da Germanwings contra as montanhas dos Alpes franceses em decorrência de suposta crise de depressão, matando a si próprio e mais 149 pessoas.

Os principais jornais noticiaram que o jovem copiloto de 27 anos sofreu uma crise depressiva, com diagnóstico que até então não havia sido confirmado por nenhum médico. A forma com que foram tratados o evento e as suposições apenas provocou uma onda de revolta, medo, interpretações distorcidas e exaltou o estigma, o preconceito e a discriminação.

Passados dois anos dessa tragédia, muitas vidas se perderam em decorrência do suicídio. Isso decorre da desassistência à saúde e da discriminação ao doente com transtorno mental.

Há algumas décadas tem-se trabalhado pelo fim do estigma, trazendo à baila questões importantes acerca da inclusão social dos doentes com transtornos mentais e comportamentais (TMCs). À luz da ciência médica, são doenças que, se submetidas ao tratamento especializado, permitem ao paciente o convívio pleno na sociedade, com o desenvolvimento das suas potencialidades nos diversos campos do saber, do lazer e do trabalho.

É histórico o preconceito sofrido pelos pacientes, seja por parte deles próprios, da família, dos pares e de toda a sociedade, de todas as formas e matizes. É interesse absoluto da medicina exterminar esse tipo de estigma, que prejudica o diagnóstico preventivo e o tratamento e culmina de forma trágica com a interrupção da vida de milhares de pessoas acometidas, sendo, por ano, cerca de 12 mil suicídios, um a cada 45 segundos.

Sobre a tragédia com o Airbus 320 da Germanwings, ouvimos: “Por que ele estava trabalhando com depressão?”.

Em muitas ocasiões, os pacientes em curso de transtorno mental não precisam se afastar do trabalho, ao contrário do que a maioria das pessoas pensam. O trabalho não é apenas um meio de garantir a subsistência do indivíduo e de sua família, mas, de fato, elemento fundante do homem. É meio de realização pessoal, de elevação da autoestima, de reconhecimento dos pares, de sentido de utilidade à sociedade, enfim, meio de desenvolvimento de suas potencialidades, e não, como outrora difundido, meio de tortura do indivíduo. Por outro lado, quando o paciente não está em tratamento médico psiquiátrico ou, ainda, quando o trabalho se apresenta como fator de adoecimento, desencadeamento ou agravamento de um transtorno mental, então se faz necessário o afastamento temporário da atividade laboral.

Nas duas situações, o médico do trabalho, como gestor em segurança e saúde no trabalho, reúne todas as ferramentas necessárias à identificação da doença, do risco e da conduta a ser seguida, encaminhando o trabalhador ao psiquiatra e monitorando o seu tratamento. No Brasil e no mundo, os TMCs figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho, apresentando o mais alto índice de absenteísmo, ou seja, o que deixa o trabalhador por mais tempo afastado. Em segundo lugar, aparecem as doenças musculoesqueléticas (DMEs) e, em terceiro, lesões, envenenamento e algumas outras consequências de causas externas. Na empresa, programas de prevenção em saúde mental, palestras e campanhas educativas com envolvimento de empregados e empregadores têm resultados exitosos quando inseridos na cultura empresarial, com acesso aos serviços públicos e/ou privados de assistência ao doente com TMCs.

Dados do Ministério da Saúde evidenciam que 46 milhões de brasileiros sofrem de depressão; no mundo, aponta a Organização Mundial de Saúde, são 700 milhões, 1/3 sem acompanhamento médico especializado. Os TMCs representam 13% de todas as doenças no mundo. A OMS ainda prevê que 350 milhões de indivíduos deverão sofrer de depressão, e 90 milhões terão um surto em decorrência de dependência química.

Em que pesem os trágicos eventos e os dados alarmantes, ainda enfrentamos graves falhas na assistência à saúde mental da população e ausência de políticas públicas eficazes.


* É médica do Trabalho, diretora da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT) e Conselheira Federal de Medicina

   

* As opiniões, comentários e abordagens incluidas nos artigos publicados nesta seção são de inteira responsabilidade de seus autores e não expressam, necessariamente, o entendimento do Conselho Federal de Medicina (CFM).

 

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O desaparecimento de crianças e de adolescentes
Qua, 27 de Setembro de 2017 14:22

 José Fernando Maia Vinagre*
 
Como pediatra, ao longo de mais de três décadas de exercício profissional, fui confrontado em diferentes momentos com relatos sobre o desaparecimento de crianças e de adolescentes. Talvez pelo envolvimento com minhas atividades, não visualizasse um fenômeno causador de tantos danos. Com o passar dos anos, mudei minha percepção. Hoje não tenho dúvidas sobre a existência desse tema como um grave problema social, desestruturador de vidas e de famílias.

No Distrito Federal, a auxiliar de cozinha Fátima Carvalho não consegue mais uma noite de sono tranquila. Em São Paulo, Sandra Moreno se tornou uma ativista, com militância reconhecida nacionalmente. Na mesma cidade, Lucélia viu sua vida se transformar numa busca incessante. Três vidas, três histórias, três mulheres que têm dois pontos em comum: são mães de crianças que desapareceram sem deixar rastros e que até hoje mantêm acesa a chama da esperança de que seus dramas tenham um final feliz.

Num País onde as estatísticas sobre esse assunto não são confiáveis, acredita-se que, por ano, em média 250 mil pessoas desaparecem no Brasil sem deixar rastro. Dessas, em torno de 40 mil têm menos de 19 anos, de acordo com estimativas. Desde 2012, o Conselho Federal de Medicina (CFM), com o apoio de várias outras entidades civis, tem tentado recolocar o tema na agenda pública de debates. Contudo, a percepção é de que ainda há muito a ser feito.

Como parte desse esforço, merece destaque a organização de um abaixo-assinado cobrando a efetivação do Cadastro Nacional de Crianças e Adolescentes Desaparecidos. O modelo atual, que está sob a supervisão do Ministério da Justiça (disponível em: www.desaparecidos.gov.br), tem recebido críticas de quem acompanha o tema, pois é considerado desatualizado e sem resultados efetivos no enfrentamento do problema.

Esse Cadastro Nacional tinha como proposta montar um banco de dados seguro, capaz de auxiliar na difusão de informações e no esclarecimento dos casos de desaparecimento. No entanto, após passar por reformulação, a nova versão, colocada no ar em março de 2013, até agora não conseguiu se consolidar como uma referência no enfrentamento da questão.

A baixa adesão sinaliza a falta de efetividade da ferramenta. De acordo com o site R7, em setembro de 2013, eram contabilizados 305 casos cadastrados, em 17 estados. Passados quase dois anos, a quantidade de inscritos não chegava a 400, em 20 estados. A reportagem acusava uma situação de abandono, corroborada pela ONG Mães da Sé, uma das entidades que referência no País sobre esse assunto.

Se funcionasse conforme o previsto, as coisas poderiam ser diferentes. A vantagem estaria no fluxo qualificado de informações, que pode ser fundamental na solução dos casos. Por exemplo, hoje uma criança desaparece em um estado. Porém, a elaboração do boletim de ocorrência numa delegacia de polícia não é garantia de que o alerta será dado em outras unidades da Federação.

Além disso, se essa mesma criança for encontrada em um determinado estado, a falta de integração não ajudará em nada para que ela chegue até os pais ou as autoridades do local onde a ocorrência inicial foi gerada. Em outras palavras, a ausência de comunicação impedirá a busca e, em algumas situações, que um ponto final seja colocado em histórias embebidas em lágrimas e desespero.

O Ministério da Justiça, por sua vez, enxerga o potencial do Cadastro Nacional, mas admite que ainda não conta com a esperada integração com órgãos de segurança pública. Para tanto, anuncia que tenta levar esse projeto adiante, inclusive como forma de dar sequência à Lei nº 12.648, instituída em 4 de julho de 2012, que “prevê a integração de todos os boletins de ocorrência dos Estados e a divulgação de dados de pessoas desaparecidas no portal da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Sinesp)”.

Enquanto a solução definitiva não vem, a ineficiência continuará a criar o ambiente propício para que o desaparecimento de crianças e de adolescentes prospere no País. Contudo, se faltam políticas públicas e ferramentas eficientes para prevenir e combater esse fenômeno que afeta esse segmento da população, também não se pode ignorar a necessidade de diagnosticar as causas que levam à incidência de novos casos.

Considerados os possíveis diagnósticos de fenômeno de tamanha complexidade, a sociedade, em especial o governo – em todas as suas esferas de atuação –, deve estar atenta a ações que são necessárias para tratar o problema adequadamente. A atualização do Cadastro Nacional, como defendido pelo CFM e seus parceiros institucionais, é apenas umas das atitudes que devem ser adotadas como urgência.

Além dele, devem ser avaliadas medidas como a criação de delegacias especializadas na área da infância e da juventude, o que poderia tornar mais efetiva a busca pelos jovens desaparecidos, conforme tem sido proposto por representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em São Paulo. No entendimento do grupo, que atua na Comissão da Infância e da Juventude da instituição, urge a realização de um trabalho multidisciplinar para tratar do problema.

Pela sugestão, o registro da ocorrência poderia ser feito em qualquer delegacia, mas as investigações seriam conduzidas por equipes especializadas. Essas delegacias deveriam ter condições de atuar com uso de infraestrutura e de tecnologias necessárias às apurações, além de contar com equipes multidisciplinares, com assistentes sociais e psicólogos.

No campo policial, também se faz necessário acabar com o mito de que a ocorrência de um desaparecimento só pode ser feita após 24 horas de sua constatação. Pelo contrário, ao primeiro sinal de suspeita, as autoridades devem ser comunicadas para que as investigações tenham início o quanto antes. Aliás, essa questão reforça a relevância de outra medida: a implementação de uma ampla campanha, de caráter permanente, como foco no esclarecimento da sociedade sobre o problema do desaparecimento de crianças e de adolescentes e nas formas de sua prevenção.

Em um País com tantos problemas sociais, o desaparecimento de crianças e de adolescentes não pode ser visto como um tema acessório ou menor. Trata-se de um fenômeno importante que carece de medidas para seu enfrentamento. No Brasil, esse é mais um desafio que se impõe, exigindo respostas concretas das autoridades e também das famílias, que podem ser agentes efetivos de prevenção, seja pela adoção de normas de segurança, seja pelo estímulo ao diálogo entre pais e filhos, certamente fatos de proteção. Assim, muitos homens, mulheres, crianças e adolescentes serão poupados de horas de angústia e de desespero por desconhecerem o paradeiro de seus entes queridos.

 

* É corregedor do Conselho Federal de Medicina (CFM).

    

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